Colonialidade do poder e horizontes Descoloniais: gênero, epistemologias e o projeto do Bien Vivir
- Ísis Veríssimo

- 21 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Este texto traz um debate sobre os capítulos 2, 3, 5 e 8 do livro “Descolonialidade e Bien Vivir: Um Novo Debate na América Latina”, organizado por Aníbal Quijano. Esses capítulos apresentam reflexões centrais sobre a crítica à modernidade eurocêntrica e à colonialidade do poder, discutindo não apenas os efeitos dessa estrutura de dominação, mas também alternativas possíveis ao modelo de desenvolvimento imposto pelo Ocidente.
No capítulo 2, Quijano enfatiza o contraste entre a noção ocidental de desenvolvimento e o horizonte do Bien Vivir, inspirado em cosmovisões indígenas andinas. Para ele, o desenvolvimento é uma falácia eurocêntrica, baseada na ideia de progresso linear e ilimitado, que aprofunda desigualdades e destrói a natureza. Já o Bien Vivir propõe outro modo de existência, sustentado em reciprocidade, comunalidade, espiritualidade e equilíbrio com o mundo natural. Não se trata de restaurar um passado idealizado, mas de retomar experiências históricas interrompidas pela colonialidade, elaborando um projeto de libertação e reconfiguração das relações sociais e ambientais.
O capítulo 3, escrito por Rita Laura Segato, amplia a proposta de Quijano ao destacar que a colonialidade não se limita à dimensão racial, mas também se manifesta no patriarcado. Ela organiza a teoria da colonialidade do poder em três eixos: as relações entre poder e Estado, as formas de racionalidade – tecnocrática e histórica – e os dispositivos de raça e gênero. Segato mostra como a colonialidade produziu hierarquias sociais e subjetivas que naturalizaram a subordinação de populações racializadas e de mulheres. A subjetividade forjada nesse processo está intrinsecamente ligada às condições materiais de existência, revelando a profundidade dessa estrutura. Além disso, a autora observa que o vocabulário da des/colonialidade ultrapassou o âmbito acadêmico e passou a ser apropriado por movimentos sociais e indígenas no Abya Yala, fortalecendo práticas políticas e epistemológicas que desafiam o Estado liberal e a racionalidade do desenvolvimento.
No capítulo 5, Carolina Ortiz resgata intelectuais latino-americanos que formularam críticas à colonialidade muito antes da institucionalização da teoria decolonial. Felipe Guaman Poma de Ayala, em sua Nueva corónica y buen gobierno (século XVII), denuncia a violência colonial e propõe um modelo de “bom governo” fundado em valores indígenas de igualdade, justiça social e educação intercultural. Clorinda Matto de Turner, no século XIX, defende os povos indígenas, denuncia o racismo e o patriarcado e reivindica a valorização das línguas indígenas, em especial o quechua. Trinidad Enríquez, pioneira no acesso feminino à universidade no Peru, lutou pela educação das mulheres e pela sua participação na vida pública. Para Ortiz, essas figuras demonstram que a crítica à colonialidade sempre esteve presente na América Latina, ainda que marginalizada pelo cânone eurocêntrico. Seus legados revelam a persistência de saberes e práticas que resistiram à tentativa de apagamento colonial e anteciparam debates atuais sobre interculturalidade, gênero e justiça social.
O capítulo 8, de Julio Mejía, aprofunda a sistematização teórica da colonialidade e da descolonialidade. Retomando Quijano, apresenta a tríade colonialidade do poder, do saber e do ser, demonstrando que essas dimensões não pertencem apenas ao passado, mas constituem a própria modernidade. Mejía argumenta que o sistema capitalista global atravessa uma crise estrutural que abre brechas para alternativas e entende a descolonialidade como um projeto não apenas de resistência, mas de transformação societal. Esse horizonte propõe reorganizar a produção, a distribuição, a autoridade e a subjetividade com base em princípios como reciprocidade, associação comunal, igualdade entre diferentes e convivência equilibrada com a natureza.
Apesar das convergências, há diferenças de enfoque entre os capítulos. Quijano (cap. 2) e Mejía (cap. 8) enfatizam a crítica ao desenvolvimento e a formulação de alternativas societais a partir de uma abordagem conceitual mais ampla. Segato (cap. 3) desloca a atenção para as dimensões de gênero e subjetividade, articulando a colonialidade com o patriarcado e com práticas políticas contemporâneas. Ortiz (cap. 5), por sua vez, traz uma perspectiva histórica ao recuperar vozes e projetos muitas vezes esquecidos, mas que revelam uma tradição de resistência intelectual na América Latina.
Em conjunto, esses capítulos reforçam que a colonialidade do poder não é um resquício do passado, mas uma estrutura viva que ainda molda profundamente as relações sociais, culturais, econômicas e políticas. As alternativas apresentadas – como o Bien Vivir e os princípios da descolonialidade – não se limitam a criticar o modelo eurocêntrico de desenvolvimento, mas apontam para a reconstrução das bases sociais e políticas a partir da diversidade cultural, da reciprocidade e da sustentabilidade. Ao mesmo tempo, cada autor contribui com uma lente distinta: ora sistematizando a teoria (Quijano e Mejía), ora ampliando-a para as dimensões de gênero e subjetividade (Segato), ora historicizando-a (Ortiz).
Dessa forma, a leitura dos capítulos 2, 3, 5 e 8 do livro organizado por Quijano mostra que a crítica à colonialidade é múltipla e que o desafio atual não é apenas compreendê-la, mas propor caminhos concretos de transformação que articulem crítica, memória e horizonte de futuro.
Referência
QUIJANO, Aníbal (org.). Des/colonialidad y Bien Vivir: Un nuevo debate en América Latina. Lima: Universidad Ricardo Palma; Cátedra América Latina y la Colonialidad del Poder, 2014.


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