A interseção de gênero e renda na acessibilidade em Curitiba
- Geisa Bugs
- 11 de fev.
- 3 min de leitura
A interseccionalidade de gênero e renda desempenha um papel crucial na acessibilidade urbana. Estudos indicam que mulheres, especialmente aquelas de baixa renda e pertencentes a grupos étnicos minoritários, enfrentam desafios significativos no acesso a oportunidades urbanas. Esses desafios são exacerbados pela distribuição desigual de recursos e pela segregação socioespacial.
Um relatório do Banco Mundial destaca que mulheres negras são as mais afetadas pela qualidade dos serviços de transporte, tornando-as vulneráveis a riscos de violência e exclusão social. A interseccionalidade de gênero e raça resulta em experiências únicas de exclusão, especialmente em contextos urbanos onde o acesso a serviços essenciais ainda se faz necessário.
A pesquisa recente publicada no Journal of Transport Geography, intitulada "Unveiling inequalities: The intersection of gender and income in accessibility in Curitiba, Brazil", aborda essas questões. Investiga as desigualdades de acessibilidade em Curitiba, Brasil, utilizando um modelo baseado em agentes (modelo AxS) para gerar trajetórias artificiais a partir do conjunto de dados agregado da pesquisa Origem-Destino (OD) e calcular métricas de acessibilidade individual. O artigo contribui ao examinar as desigualdades na acessibilidade individual sob uma perspectiva interseccional, considerando tanto o gênero quanto a renda, no contexto de uma metrópole do Sul Global.


Os resultados indicam que, de maneira geral, os homens em Curitiba têm maior acesso a oportunidades do que as mulheres. A exceção ocorre na classe de renda A (a mais alta), onde as mulheres tendem a percorrer rotas mais curtas e centrais, utilizando mais frequentemente o carro, o que resulta em maior acessibilidade. No entanto, as mulheres em outras faixas de renda enfrentam menor acessibilidade em comparação aos homens, principalmente devido à residência em áreas periféricas com menos oportunidades locais e maior dependência de modos de transporte mais lentos, como transporte público e caminhada, para acessar essas oportunidades. O fosso de acessibilidade de gênero amplia-se consideravelmente à medida que a renda diminui, evidenciando a importância da interseção entre fatores de renda e gênero.
A disparidade de gênero na acessibilidade em Curitiba pode ser associada principalmente à escolha (ou restrição de escolha) do modo de transporte, que está diretamente ligada à renda, já que o carro particular ainda é o modo mais eficiente para a mobilidade diária no Brasil, mas também é o mais caro (Vasconcellos, 2005; Giannotti et al., 2021). Como sugerido por Freire-Medeiros et al. (2023), a dependência do uso de carros estabelece uma hierarquia de mobilidade que pode impactar desproporcionalmente as mulheres. As mulheres têm menor probabilidade de possuir um carro ou uma carteira de motorista (Uteng, 2012). Além disso, no Brasil, são frequentemente os homens que têm prioridade no uso do carro da família (CNI, 2015). Consequentemente, as mulheres dependem mais da mobilidade ativa e do transporte público, resultando em uma redução em sua mobilidade geral.
Enfrentar esse cenário exige uma combinação de políticas públicas, como promover o uso misto do solo em áreas periféricas e fazer investimentos significativos em transporte público de alta qualidade, garantindo uma cobertura extensa e reduzindo os tempos de deslocamento, além de mudanças sociais estruturais mais amplas. O transporte urbano é um dos serviços essenciais mais críticos sob uma perspectiva de gênero. Portanto, as políticas de planejamento voltadas para a equidade precisam reconhecer e considerar as diferenças nos padrões e necessidades de mobilidade das mulheres, sempre considerando os aspectos interseccionais, visto que a desigualdade de gênero pode ser afetada por diversos fatores.
Referências
E.A. Vasconcellos. Urban change, mobility and transport in São Paulo: three decades, three cities. Transp. Policy, 12 (2) (2005), pp. 91-104.
M. Giannotti, J. Barros, D.B. Tomasiello, D. Smith, B. Pizzol, B.M. Santos, C. Zhong, Y. Shen, E. Marques, M. Batty. Inequalities in transit accessibility: contributions from a comparative study between global south and north metropolitan regions. Cities, 109 (2021).
B. Freire-Medeiros, A. Magalhães, P. Menezes. Mobilidades e infraestruturas: algumas possibilidades interpretativas. Revi. Brasil. Soc., 11 (28) (2023), pp. 5-23.
CNI - Confederação Nacional das Indústrias Retratos da sociedade brasileira: Mobilidade Urbana (2015). Disponível em: https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/7f/1d/7f1de722-455b-4a18-bc0a-6bdc5430b9a7/retratosdasociedadebrasileira_27_mobilidadeurbana.pdf.
T.P. Uteng. Gender and Mobility in the Developing World (2012). Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/277743183_Gender_and_Mobility_in_the_Developing_World
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